25.09.2009

Com 144 anos de tradição, uma instituição de ensino da região de Boston, EUA, decidiu encerrar as atividades da sua velha biblioteca.
Parece muito radical numa visão conservadora, mas a Cushing Academy está descartando todo o seu acervo com mais de 20 mil livros impressos para dar lugar a uma biblioteca considerada dentro dos padrões do século XXI.
Nas palavras do diretor da instituição, James Tracy, o suporte em que se baseia um livro está defasado e por isso tomou essa decisão com o objetivo fazer um profundo upgrade tecnológico.
No lugar das estantes de livros, o intuito é construir uma biblioteca virtual onde os estudantes poderão utilizar e-books, laptops e telões com projeção de conteúdos da internet. No lugar do balcão de referência, haverá uma pequena cantina e uma máquina de capuccino de US$ 12.000.
Essa notícia publicada no jornal on-line The Boston Globe, me chamou muito a atenção.
Até agora, eu encontrei bibliotecas se esforçando a integrar o “novo” (internet, multimídia e outros trecos tecnológicos modernos) com o “antigo” (livros). Não podemos impedir esse processo de modernização, uma vez que ela traz uma série de incentivos à aprendizagem e troca de informações, ampliando as possibilidades de comunicação e difusão do conhecimento.
Alguns podem chamar o Sr. Tracy de louco. Outros podem chamá-lo de visionário.
Eu prefiro um meio termo.

As bibliotecas não devem ser encaradas como instituições de acesso ao livro. Sabe esses programas do governo que esperam erradicar todos os problemas de educação com um punhado de livros em cada cidade do país? Pois é, bibliotecas nesse formato não levam a lugar nenhum num mundo onde se fala de Wikipédia, redes sociais, educação colaborativa e internet móvel.
Também não acredito que bibliotecas “hi-tech”, onde livros eletrônicos são a única forma de ler um conto dos Irmãos Grimm ou Machado de Assis, sejam a solução definitiva. Embora a geração atual, e as que virão, domine amplamente as ferramentas do ciberespaço, há boas razões para manter algumas estantes de livros à disposição do público. Provavelmente a principal razão é o prazer de ler, tocar e sentir um livro. Ler uma obra do seu autor favorito numa tela gélida não tem o mesmo gosto. Não há nenhuma tecnologia que esteja próxima de substituir essa sensação.
Particularmente, ainda gosto de folhear livros, revistas e jornais.
Textos acadêmicos e técnicos são mais aceitos dentro dessa adaptação tecnológica. Revistas científicas são distribuídas eletronicamente, pela internet, reduzindo custos e aumentando o acesso aos seus artigos. É bom para editores, é prático para pesquisadores.
E já viu como as empresas estão deixando de oferecer versões impressas dos manuais dos seus produtos? Materiais desse tipo cabem muito bem numa tela de computador.
Mais do que oferecer milhares de títulos de livros ou recursos tecnológicos de última geração, as bibliotecas devem ser centros de convivência e pontos de encontro de uma cidade, comunidade ou instituição. Já publiquei nesse blog diversos exemplos de espaços atraentes e funcionais, como a Seattle Public Library e outras. Com certeza, os recursos da maioria são insuficientes para projetos tão avançados, mas é possível fazer grandes transformações priorizando duas coisas: pessoas (suas necessidades e seu perfil) e informação (acesso e uso).
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Gostei muito deste post e partilho inteiramente a sua opinião.
Concordo em termos. Sim, a experiência sensorial de tocar e folhear um livro é importante, e creio que ela seja fundamental para a o desenvolvimento do gosto pela leitura, especialmente em jovens e crianças. No meu caso, já desenvolvi o hábito de ler livro eletrônico. Uso um palm para ler na cama (pq ler sentado na frente do monitor é dose
).
Sou a favor do uso de tecnologias, mas acho muito radical, acredito que nós profissionais da informação temos que conviver com os dois mundos – biblioteca tradicional e digital/virtual – porque nossa clientela é diversificada, as necessidades de informação são variadas e os recursos são escassos. Depois o formato impresso é o maior meio de registro do conhecimento; além disso como ler Fernando Pessoa, Gustave Flaubert ou Eça de Queirós sem folhear, rabiscar, comentar e sentir o cheirinho do papel????????
Interessante, de qualquer forma não podemos crucificar esta nova visão que se torna tão coerente aos novos olhos. Nossa realidade tão diversificada e tão abandonada… De qualquer forma, atende a nova demanda internauta. Porém, ninguém consegue sonhar e vivienciar sensorialmente as páginas de um bom livro, seja técnico ou pura diversão. Aguardemos…
[...] Uma biblioteca sem livros – Com 144 anos de tradição, uma instituição de ensino da região de Boston, EUA, decidiu encerrar as atividades da sua velha biblioteca [...]