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13.11.2008

Wikipédia: as lições de Jimmy Wales e dos ‘zés manés’

 

Wikipédia

Jimmy Wales, co-fundador da Wikipédia, veio ao Brasil para participar de vários debates sobre conhecimento colaborativo. As discussões, principalmente no evento WikiBrasil realizado no Centro Cultural São Paulo no dia 10 e a sabatina realizada na Folha de São Paulo no dia 12 de novembro, foram bastante acaloradas e foram boas para evidenciar algumas coisas importantes.

A Wikipédia é empolgante, sem dúvida nenhuma. No aspecto colaborativo da ferramenta, é extremamente positivo que exista um repositório universal (especialização em vários assuntos) de informações mantido pelos próprios usuários. Ela é uma ferramenta onde os processos de construção e uso são livres. Você é livre para consultar, criar e modificar o conteúdo. É a democratização da informação, em todos os sentidos.

No entanto, esse é o calcanhar de Aquiles da Wikipédia: até onde podemos confiar nas informações disponíveis em seus verbetes?

Até mesmo o Jimmy sugere aos usuários que tenham bastante precaução com a fonte das informações, conforme ele disse à Folha:

“A pessoa precisa ter a noção a respeito de onde vem aquela informação, e não aprendê-la diretamente”. [fonte]

As instituições de ensino e os mais conservadores defendem a informação formal e validada por um método que garante sua autoridade. Vale a pena lembrar o que disse Gilson Schwartz, professor da USP, no debate realizado no CCSP:

“Será que esse processo é de aquisição de conhecimento mesmo ou é só a difusão de algo que não passa por um critério que ainda existe na universidade, que é passar por uma avaliação, pela crítica de seus pares? (…) É a mesma coisa ler algo de um físico especializado ou de um ‘zé mané’ blogueiro?” [fonte]

Diante dessa colocação do professor Schwartz, eu me pergunto: se o físico Manuel (achei esse nome bem propício para o exemplo) possuir um blog sobre sua área de atuação, as informações publicadas por ele perderão o valor? Se o Manuel colocar algum verbete sobre Física na Wikipédia será um ‘zé mané’ segundo pessoas que pensam da mesma forma que o Schwartz?

O que eu quero dizer com tudo isso?

As instituições menosprezam o valor da Wikipédia. Só que ela é um espelho do conhecimento obtido através das mesmas instituições que a criticam.

Blogs e wikis são ferramentas para disseminação de informação e geração de conhecimento. Viajando um pouco nessa idéia, podemos visualizar essas ferramentas como uma aplicação prática do modelo da espiral do conhecimento de Takeuchi e Nonaka.

Ironias à parte, é triste ouvir histórias de professores recusando trabalhos de alunos que “copiaram” do Wikipédia e aceitando a “cópia” do verbete da Barsa – mal sabem que muito provavelmente o primeiro seja fruto do segundo. Mais triste ainda é ouvir, sem ironia, um acadêmico respeitado falar que a educação é válida apenas se “certificada” pelo crivo das instituições.

O próprio Jimmy esclarece que as informações têm pesos diferentes de acordo com a sua origem:

“Um físico vai contribuir de uma forma e a pessoa na rua vai contribuir de uma outra forma (…) Não se trata de as pessoas gritarem umas com as outras. É apenas uma forma simples de aprender sobre algum assunto honestamente.”[fonte]

Chego à conclusão que a educação formal e informal, assim como as fontes de informação formais e as informais, têm valores distintos, mas são complementares.

É como cozinhar (embora o ‘zé mané’ aqui não saiba nem fritar um ovo). :-D

Às vezes, o melhor mestre-cuca não é aquele que foi sempre nota dez na faculdade de gastronomia, mas aquele que também pegou todas as dicas de tempero da vovó.

Em outras palavras, as instituições não precisam medir forças com esse tipo de coisa. A experiência pessoal e outros meios para se educar são igualmente válidos para o desenvolvimento de cada indivíduo. Sem contar que o processo colaborativo de criação de conhecimento extrapola as barreiras impostas pela educação formal.

É o que encontramos na Wikipédia.

 

 

 

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2 COMENTÁRIOS

  • Giovanni comentou em 14.11.2008 - 08:38

    O comentário de Gilson Schwartz reflete o corporativismo da chamada “comunidade científica”, especialmente a que habita a Universidade de São Paulo. O discurso da “autorização” do conhecimento é apenas um mecanismo de manutenção do poder de uma classe. A autorização por pares jamais está isenta de relações de poder, e, no caso de um centro como a USP, quiçás as relações de poder vogam muito mais que a cientificidade de um artigo aprovado por um par. No fundo, a rejeição do conhecimento da Wikipédia é o medo de se perder poder. Já para muitos, o conhecimento disponibilizado na Internet inutilizou as universidades.

  • Trackback
    Wikimedia Brasil 2009: Mutirões pelo Conhecimento Livre » Web Librarian: blog sobre biblioteconomia, cibercultura e arquitetura de informação - 17.11.2009 19:55

    [...] Wikipédia: as lições de Jimmy Wales e dos “Zés Manés” Vídeos do WikiBrasil: Mutirão de Conhecimentos Livres Entrevista de Jimmy Wales ao UOL A Sociedade em Rede e a Educação [...]

 

 

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